- Um
novo começo
– A saída mais fácil pode se tornar a mais perigosa, não acha? – uma voz grave encheu o ar ao redor de Ananda. Ela não fazia a mínima ideia de quem era aquele homem, mas ele acabara de lhe dar a verdadeira dimensão do que estivera prestes a fazer.
Sentiu um suor frio pela testa e sentou-se sobre o caixote. Suas mãos tremiam e as pernas estavam fracas. Isso tudo está errado!, pensou. Como chegara àquela decisão idiota não sabia, apenas agradecia a Deus por ter mandado aquela pessoa até ali para impedi-la. Nesse momento, olhou para o homem que continuava a observá-la, pacientemente.
– Meu nome é Jorge. – ele lhe estendeu a mão, aproximando-se da luminária e ela pode vê-lo melhor. Era um homem na faixa dos seus cinquenta e poucos anos, um pouco calvo, vestia-se elegantemente usando um terno cinza, tinha um sorriso respeitoso e não a encarava como se fosse uma louca, pelo contrário, aquele olhar transmitia compreensão. Ela segurou a mão dele.
– Eu sou Ananda e... – ela respirou fundo, envergonhada – obrigada por... por...
– Não há de quê. – ele a interrompeu antes que chegasse ao ponto mais constrangedor da frase. – Fico imensamente feliz por estar aqui.
Jorge encostou-se na mureta e a encarou, abrindo um largo sorriso.
– Hoje a noite está magnífica! Podemos até ver uma porção de estrelas. Faça um pedido. Até aquele momento Ananda sequer tinha notado que dava para enxergar as estrelas aquela noite. Na verdade nem olhara para cima. Acostumara-se a ver o céu sempre nublado ou encoberto pela poluição. Aquele homem realmente devia ver apenas o lado positivo das coisas.
– Mudei-me hoje para este prédio. E acho que fiz bem. – ele continuou, e Ananda não sabia se ele se referia mesmo à mudança, às estrelas ou ter salvo uma louca prestes a cometer suicídio.
Uma mescla de constrangimento, desespero e raiva de si mesma a invadiu e grossas lágrimas desceram por seu rosto. Jorge se aproximou e lhe ofereceu um lenço.
– Obrigada. – ela repetiu. Talvez eu devesse passar o resto da vida agradecendo a ele, pensou.
– Escute, filha. – ele se agachou diante dela. – O que quer que tenha acontecido não é mais importante que a sua vida. Nada é. Você pode lutar por ela, ainda que tudo pareça perdido. Não desista da sua vida. Ela não conseguiu conter as lágrimas e baixou a cabeça. Tudo começava a clarear em sua mente.
– Acho que tem razão... – murmurou. Não queria mais aquela vida com Caio, mas queria desesperadamente viver. – Agora sei o que devo fazer. Mas para onde eu vou? , ela já se desesperava.
– Pegue. – Jorge lhe ofereceu um pequeno cartão. – Talvez esse seja o lugar para onde deve ir.
Ananda ficou muda, ele parecia lhe adivinhar os pensamentos. Como seria possível?
– Obrigada. – segurou o cartão e esboçou o que deveria ser um sorriso; ele riu também.
– É um lugar onde você reencontrará suas forças, onde poderá tomar suas decisões e mudar a sua vida completamente. – ele se levantou. – Cuide-se, filha.
Ela abriu a boca para agradecê-lo novamente, mas ele acenou com a cabeça, compreendendo e sorrindo. Tão de repente quanto surgiu, ele desapareceu pelas escadas.
Ananda estava sozinha. A dor queria voltar para atormentá-la e ela apertou o cartão entre os dedos. Sentia o peito oprimido e quis gritar.
– Não, essa dor não vai me vencer. – murmurou, levantando-se e caminhando até um facho de luz.
Estava escrito em letras verdes, contrastando levemente com o pequeno papel reciclado:
UMA COMUNIDADE ALTERNATIVA PARA QUEM QUER VIVER PLENAMENTE. UM RAIO DE SOL EM SUA VIDA.
Abaixo, apenas um endereço. Ananda se assustou quando prestou atenção ao nome do Estado em que ficava a comunidade. Roraima.
– Comunidade alternativa. Longe. Muito longe.
Mas era isso mesmo que queria, ir para bem longe dali e viver. Esquecer de tudo, fugir daquela vida sem sentido. Talvez Jorge fosse um anjo dando-lhe a oportunidade de recomeçar, uma chance divina antes que cometesse aquela sandice. Anjo... Estou mesmo louca! riu amargamente de si mesma.
Voltou ao apartamento quase correndo. Estava decidida. Era como se
aquele lugar cheio de luxo a estivesse sufocando. Os quadros, os
móveis, as cores, até as paredes lhe davam uma sensação de
claustrofobia.
Para seu completo alívio Caio não estava mais lá, então trocou de roupa bem rápido. Consultou pela internet sobre a tal comunidade Raio de Sol e encontrou poucas informações e uma única foto da casa principal. Eram pequenas casas ao redor de uma enorme construção de madeira em meio a árvores centenárias. O administrador: Seth Wood.
– Seth Wood? Wood? – não pode conter o riso. – Com esse nome deve ser um gringo. Pelo menos a comunidade existe mesmo.
Arrumou umas poucas coisas numa maleta, pegou algum dinheiro, seus documentos e saiu. Deixou o celular, não precisaria dele onde estava indo. Pensou em ligar para sua mãe, mas o que poderia dizer? “Estou indo a um lugar que nem sei ao certo onde fica, mas não se preocupe?” Não, não iria mesmo ligar.
Tinha um zilhão de ideias passando por sua cabeça e pouquíssimo tempo para por em prática. Pouco tempo antes que seu lado racional a paralizasse. Podia estar fazendo a maior loucura de sua vida, mas a satisfação que estava sentindo valia todos os riscos.
Chegou ao Shopping e foi direto ao salão de beleza. Cortou os cabelos em um channel assimétrico e retornou à cor natural, castanho. Voltava a ser Ananda Pontes. Agora só restava comprar as passagens de avião direto para Roraima. Devia haver uma dezena de companhias de turismo por ali e ela soube que começara sua jornada.
A ansiedade de Ananda só diminuiu quando o avião aterrissou em solo roraimense. Passara a madrugada apenas cochilando e não acreditou no calor que fazia quando saiu do aeroporto. Era quase insuportavelmente quente, mas ela não desanimou. Endireitou o vestido amarelo, colocou os óculos escuros e sorriu. Há anos não se sentia tão animada, até esquecera-se da dor.
– Uma fuga cinematográfica.
Adeus Caio, olá Roraima!
Ainda sorrindo ela entrou no táxi e após algumas horas na cidade observou que não era tão pequena, mas agradável, aconchegante e as pessoas eram receptivas. Almoçou, alugou um carro e comprou um mapa.
Logo estava na estrada, à caminho da tal comunidade alternativa. Talvez eu esteja louca mesmo!, disse para si mesma, evitando pensar racionalmente. Aquela aventura era tudo o que precisava para mudar completamente o rumo de sua desinteressante vida. Não queria pensar em riscos, estava decidida a viver e não mais voltar para o sofrimento que era estar - ou melhor, tentar estar - ao lado de Caio.
Não queria se preocupar com mais nada, nem com o fato de jamais ter pisado em terras tão distantes. Estava eufórica como uma criança que aguarda pela manhã de natal. Planejava que tão logo se sentisse recuperada, arranjaria um emprego na cidade e moraria lá. Ante esse pensamento ela riu. É... acho que pirei mesmo!











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