Home Data de criação : 09/03/17 Última atualização : 11/10/17 11:26 / 29 Artigos publicados

Raio de sol - 3  escrito em terça 20 abril 2010 17:58

          - Um novo começo

 

          – A saída mais fácil pode se tornar a mais perigosa, não acha? – uma voz grave encheu o ar ao redor de Ananda. Ela não fazia a mínima ideia de quem era aquele homem, mas ele acabara de lhe dar a verdadeira dimensão do que estivera prestes a fazer.

          Sentiu um suor frio pela testa e sentou-se sobre o caixote. Suas mãos tremiam e as pernas estavam fracas. Isso tudo está errado!, pensou. Como chegara àquela decisão idiota não sabia, apenas agradecia a Deus por ter mandado aquela pessoa até ali para impedi-la. Nesse momento, olhou para o homem que continuava a observá-la, pacientemente.

          – Meu nome é Jorge. – ele lhe estendeu a mão, aproximando-se da luminária e ela pode vê-lo melhor. Era um homem na faixa dos seus cinquenta e poucos anos, um pouco calvo, vestia-se elegantemente usando um terno cinza, tinha um sorriso respeitoso e não a encarava como se fosse uma louca, pelo contrário, aquele olhar transmitia compreensão. Ela segurou a mão dele.

          – Eu sou Ananda e... – ela respirou fundo, envergonhada – obrigada por... por...

          – Não há de quê. – ele a interrompeu antes que chegasse ao ponto mais constrangedor da frase. – Fico imensamente feliz por estar aqui.

          Jorge encostou-se na mureta e a encarou, abrindo um largo sorriso.

          – Hoje a noite está magnífica! Podemos até ver uma porção de estrelas. Faça um pedido. Até aquele momento Ananda sequer tinha notado que dava para enxergar as estrelas aquela noite. Na verdade nem olhara para cima. Acostumara-se a ver o céu sempre nublado ou encoberto pela poluição. Aquele homem realmente devia ver apenas o lado positivo das coisas.

          – Mudei-me hoje para este prédio. E acho que fiz bem. – ele continuou, e Ananda não sabia se ele se referia mesmo à mudança, às estrelas ou ter salvo uma louca prestes a cometer suicídio.

          Uma mescla de constrangimento, desespero e raiva de si mesma a invadiu e grossas lágrimas desceram por seu rosto. Jorge se aproximou e lhe ofereceu um lenço.

          – Obrigada. – ela repetiu. Talvez eu devesse passar o resto da vida agradecendo a ele, pensou.

          – Escute, filha. – ele se agachou diante dela. – O que quer que tenha acontecido não é mais importante que a sua vida. Nada é. Você pode lutar por ela, ainda que tudo pareça perdido. Não desista da sua vida. Ela não conseguiu conter as lágrimas e baixou a cabeça. Tudo começava a clarear em sua mente.

          – Acho que tem razão... – murmurou. Não queria mais aquela vida com Caio, mas queria desesperadamente viver. – Agora sei o que devo fazer. Mas para onde eu vou? , ela já se desesperava.

         – Pegue. – Jorge lhe ofereceu um pequeno cartão. – Talvez esse seja o lugar para onde deve ir.

          Ananda ficou muda, ele parecia lhe adivinhar os pensamentos. Como seria possível?

          – Obrigada. – segurou o cartão e esboçou o que deveria ser um sorriso; ele riu também.

          – É um lugar onde você reencontrará suas forças, onde poderá tomar suas decisões e mudar a sua vida completamente. – ele se levantou. – Cuide-se, filha.

          Ela abriu a boca para agradecê-lo novamente, mas ele acenou com a cabeça, compreendendo e sorrindo. Tão de repente quanto surgiu, ele desapareceu pelas escadas.

          Ananda estava sozinha. A dor queria voltar para atormentá-la e ela apertou o cartão entre os dedos. Sentia o peito oprimido e quis gritar.

          – Não, essa dor não vai me vencer. – murmurou, levantando-se e caminhando até um facho de luz.

          Estava escrito em letras verdes, contrastando levemente com o pequeno papel reciclado:

          UMA COMUNIDADE ALTERNATIVA PARA QUEM QUER VIVER PLENAMENTE. UM RAIO DE SOL EM SUA VIDA.

          Abaixo, apenas um endereço. Ananda se assustou quando prestou atenção ao nome do Estado em que ficava a comunidade. Roraima.

          – Comunidade alternativa. Longe. Muito longe.

          Mas era isso mesmo que queria, ir para bem longe dali e viver.  Esquecer de tudo, fugir daquela vida sem sentido. Talvez Jorge fosse um anjo dando-lhe a oportunidade de recomeçar, uma chance divina antes que cometesse aquela sandice. Anjo... Estou mesmo louca! riu amargamente de si mesma.

         

 

          Voltou ao apartamento quase correndo. Estava decidida. Era como se aquele lugar cheio de luxo a estivesse sufocando. Os quadros, os móveis, as cores, até as paredes lhe davam uma sensação de claustrofobia. 

          Para seu completo alívio Caio não estava mais lá, então trocou de roupa bem rápido. Consultou pela internet sobre a tal comunidade Raio de Sol e encontrou poucas informações e uma única foto da casa principal. Eram pequenas casas ao redor de uma enorme construção de madeira em meio a árvores centenárias. O administrador: Seth Wood.

          – Seth Wood? Wood? – não pode conter o riso. – Com esse nome deve ser um gringo. Pelo menos a comunidade existe mesmo.

          Arrumou umas poucas coisas numa maleta, pegou algum dinheiro, seus documentos e saiu. Deixou o celular, não precisaria dele onde estava indo. Pensou em ligar para sua mãe, mas o que poderia dizer? “Estou indo a um lugar que nem sei ao certo onde fica, mas não se preocupe?” Não, não iria mesmo ligar.

          Tinha um zilhão de ideias passando por sua cabeça e pouquíssimo tempo para por em prática. Pouco tempo antes que seu lado racional a paralizasse. Podia estar fazendo a maior loucura de sua vida, mas a satisfação que estava sentindo valia todos os riscos.

          Chegou ao Shopping e foi direto ao salão de beleza. Cortou os cabelos em um channel assimétrico e retornou à cor natural, castanho. Voltava a ser Ananda Pontes. Agora só restava comprar as passagens de avião direto para Roraima. Devia haver uma dezena de companhias de turismo por ali e ela soube que começara sua jornada.

 

 

          A ansiedade de Ananda só diminuiu quando o avião aterrissou em solo roraimense. Passara a madrugada apenas cochilando e não acreditou no calor que fazia quando saiu do aeroporto. Era quase insuportavelmente quente, mas ela não desanimou.  Endireitou o vestido amarelo, colocou os óculos escuros e sorriu. Há anos não se sentia tão animada, até esquecera-se da dor.

          – Uma fuga cinematográfica. Adeus Caio, olá Roraima!

          Ainda sorrindo ela entrou no táxi e após algumas horas na cidade observou que não era tão pequena, mas agradável, aconchegante e as pessoas eram receptivas. Almoçou, alugou um carro e comprou um mapa.

          Logo estava na estrada, à caminho da tal comunidade alternativa. Talvez eu esteja louca mesmo!, disse para si mesma, evitando pensar racionalmente. Aquela aventura era tudo o que precisava para mudar completamente o rumo de sua desinteressante vida. Não queria pensar em riscos, estava decidida a viver e não mais voltar para o sofrimento que era estar - ou melhor, tentar estar - ao lado de Caio.

          Não queria se preocupar com mais nada, nem com o fato de jamais ter pisado em terras tão distantes. Estava eufórica como uma criança que aguarda pela manhã de natal. Planejava que tão logo se sentisse recuperada, arranjaria um emprego na cidade e moraria lá. Ante esse pensamento ela riu. É... acho que pirei mesmo!

permalink

Raio de sol - 2  escrito em quarta 06 janeiro 2010 11:25

           - Escolha

 

 

           Ao chegar a seu apartamento, Ananda jogou a bolsa em um lugar qualquer do quarto e tirou as roupas. Precisava de um bom banho, algo que a ajudasse a relaxar e que afastasse ao menos momentaneamente os problemas que povoavam sua cabeça.

Não pode ignorar a mulher abatida que a encarou no espelho. Os cabelos em tom dourado, a maquiagem forte e borrada nos olhos e a boca trêmula lhe diziam que aquela ali não era Ananda Pontes e sim uma versão feia e apagada dela.

Seu corpo esguio ainda estava ali, a cintura fina, os seios rijos, os olhos num tom acinzentado quase iguais aos do pai, os lábios finos e o nariz reto, mas ainda assim não pode ter certeza de que era ela mesma. Onde ficara o brilho de seus olhos? E que dor era aquela que transparecia apesar de todos os seus esforços para sorrir?

Levou a mão aos lábios, como para impedir um grito. Só que o grito não veio, seu peito estava completamente vazio. Seu ser ainda queria gritar para si mesma que pegasse suas coisas e fosse embora, abandonasse aquele traidor infame. Ao mesmo tempo uma voz fraca se fazia presente, era seu coração lhe implorando para ficar; mas ficar como, se nada mais restava?

Nesse dilema, viu-se entrando no chuveiro. Encostou a cabeça na parede e deixou que a água caísse sobre seus ombros. Precisava tomar uma decisão, algo que resgatasse Ananda Pontes do fundo do poço. Travava uma luta dolorida, tinha que escolher entre a dignidade ou a humilhação. Por mais que soubesse o caminho certo a seguir também se agarrava ao sentimento doentio que nutria por Caio.

Permaneceu ali por um bom tempo, nem saberia dizer quanto. Quando saiu vestiu qualquer coisa e jogou-se na cama, enrolando-se e abraçando os joelhos. Adormeceu perdida em pensamentos.

 

 

 

Mãos deslizando por seu corpo a acordaram. Sentia a cabeça pesada e ao recordar de tudo o que acontecera sentiu o ódio crescer em seu peito. Empurrou as mãos de Caio e levantou-se num salto.

– Ei, sou eu, linda! – ele levantou as duas mãos e foi se aproximando lentamente. Um sorriso cínico pairava em seus lábios.

– Caio... – era a hora da decisão. Era acabar com tudo ou esperar acontecer de novo. Ananda estava indecisa e desorientada pelo susto.

– Chegamos à cidade e eu quis logo vir encontrar a minha lindona. – aquela frase soou tão falsa que ela sentiu uma onda de náusea no estômago. – Você estava no hotel...

Ela percebeu que ele sabia de sua quase visita surpresa.

– Avisaram que estava subindo, mas você não apareceu. – Como ele pode ser tão cínico?, pensou ela. Pela primeira vez enxergava como Caio era de verdade.

– Eu recebi... uma ligação da empregada e voltei para cá. Depois... acabei dormindo. – inventou, insegura quanto ao que dizer.

– Ótimo, então podemos ficar juntinhos agora. – ele a abraçou e seus lábios procuraram os dela.

No entanto ela só sentiu nojo ao provar daquele beijo. Descobriu que não poderia enterrar a Ananda verdadeira. Estava viva e não ia continuar sufocando naquela relação.

Reuniu todas as forças que tinha e o empurrou. Caio quase desabou e ficou olhando para ela assustado.

Ananda agarrou o robe e o vestiu, saindo feito um raio de dentro do quarto. Correu descalça até as escadas e só parou ao chegar ao último lance, um pouco antes da pequena porta que dava para a cobertura. Ali era o seu cantinho, onde gostava de sentar e chorar quando se sentia sozinha.

Tentava ainda acalmar a respiração, as lágrimas ainda lhe turvavam a visão e ela se assustou ao encontrar Sam sentado lá também. Ele tinha uma garrafa de uísque na mão. Ele usava apenas jeans escuros e sapatos, o tórax perfeito estava à mostra.

– Ananda... acho que não é surpresa que você esteja aqui. – a voz dele também estava triste, porém doce.

Ela não disse nada, apenas sentou-se ao lado dele. Preocupava-se em não deixar a crise de asma retornar, respirando lenta e profundamente.

Havia apenas uma pequena lâmpada em forma de V que lançava sua fraca luz sobre eles. Ananda ficou aliviada, não queria que Sam notasse que estava tão mal.

– Como está se sentindo? – Sam segurou a mão dela gentilmente. Ananda ficou olhando para o formato da lâmpada, sem encará-lo.

– Dói muito, Sam. – ela sussurrou, o choro preso na garganta. – Pior é que eu ainda não sei o que fazer.

– Contou a ele o que viu? – ele se aproximou mais um pouco e ela encostou a cabeça no ombro dele. Não tinha forças para olhar para o amigo. – Não contou nada, não foi?

– Ai, Sam... eu não sei mais nada, eu não consigo decidir o que fazer da minha vida... – nesse momento seu corpo foi sacudido por pequenos tremores enquanto as lágrimas corriam por seu rosto. Sam a abraçou e ela se sentiu um pouco protegida. – Desculpe por ser tão covarde...

– Não, não é você a covarde nessa história. – ele segurou a ponta de seu queixo,  obrigando-a a encará-lo. – Você é uma mulher linda, doce e que tem tanto a realizar. Não pode viver à sombra de um homem, de um namorado.

Ela lembrou que Sam sempre se referia a eles como namorados e não casados. Como a maioria dos caras, ele tinha suas dificuldades com aquela palavra.

– Eu sei...  – ela se envergonhou. – Ele nunca me assumiu de verdade. – admitir aquilo foi extremamente difícil para Ananda.

– E isso eu não consigo entender. Se você fosse minha... – ele se interrompeu – minha namorada eu teria prazer em assumir isso. Uma mulher como você merece todo o amor.

Nesse momento uma intuição fez Ananda estremecer e ela se afastou um pouco, limpando as lágrimas. A forma com que ele falou foi tão intensa que ela ponderou se era efeito do uísque ou se vinha mesmo do fundo do coração.

– Eu sempre escondi isso de todo mundo, Ananda. Só que agora eu tenho um motivo real para dizer.

– Do que está falando, Sam? – a cabeça dela estava cada vez mais pesada e ela encontrou dificuldade em entender o que Sam estava tentando dizer.

– Eu amo você, Ananda. – aquelas palavras foram soltas no ar com uma doçura de brisa, que voou ao redor dela e penetrou em seus ouvidos.

– O qu... quê? – gaguejou, surpresa.

– Eu sempre amei você, Ananda. Mesmo antes de você e Caio começarem a sair juntos. – ele segurou a mão dela com firmeza. – Eu amo você, está entendendo?

– Sam...

– Eu também sei que é a ele que você ama e por isso sempre aceitei ser apenas o amigo... Ei, calma! Isso parece a maior traição ao Caio e me afeta também, mas não posso controlar o que me vai no coração. – ele suspirou – Eu jamais pediria que me desse uma chance, eu apenas não estava mais aguentando todo esse amor dentro de mim.

– Eu não posso te oferecer nada além da minha amizade, Sam. Desculpe. – a dor que Ananda sentia pareceu aumentar diante daquela revelação, que também acabara de levar seu único amigo naquela cidade. Agora sentia culpa por ter que rejeitar um amor tão sincero e verdadeiro. Passara anos de sua vida em busca de um amor assim e acabara por encontrar na pessoa errada, em um amigo tão querido.

Levou a mão ao peito, começava a sentir falta de ar.

– V-você está bem? – ele a amparou, visivelmente preocupado e culpado. Realmente estava sofrendo. Ananda queria confortá-lo em sua dor também e o abraçou.

– Oh, Sam... – não pode controlar as lágrimas.

– Perdoe-me, Ananda. – Sam a fez encará-lo. – Eu não tinha o direito de lhe causar mais sofrimento.  Eu sou um imbecil mesm...

Ela o interrompeu com um beijo suave e quente, sentindo que ele estremecia. Sam a apertou junto a si, sugando-lhe os lábios sem hesitar. Aquilo certamente causaria um pouco de sofrimento a Caio, saber que ela havia ficado justamente com o melhor amigo dele.

 Nesse momento todas as lembranças com ele passaram por sua cabeça, misturando-se com as imagens de um doce e apaixonado Sam. Como não pode enxergar o amor que ele lhe oferecia? Talvez, só talvez tudo fosse diferente. Mas, por que ele tinha de ser tão parecido fisicamente com Caio, a ponto de muitos pensarem que eles eram irmãos? O mesmo estilo de cabelo, o corpo malhado e tatuado, pertencer à mesma banda... Foi aí que ela notou a loucura que estava fazendo. Sentiu-se tão suja quanto Caio. Afastou-se enojada consigo mesma.

– Desculpe... – balbuciou, se desvencilhando dele e andando em direção à saída. – Desculpe.

– Ananda ...

– Por favor... – disse antes de sair em direção ao terraço.

As lágrimas a acompanharam, e além da dor levava também a culpa e a vergonha por dar falsas esperanças a Sam. Nunca seria capaz de ficar com ele. Sam não merecia ser usado num ato mesquinho de vingança. 

O vento forte jogava seus cabelos em todas as direções e ela começou a se aproximar da mureta. Era a cobertura de um prédio de dez andares. O som dos carros passando lá embaixo, duas ou três músicas vindas de algum lugar, as luzes da cidade ao anoitecer... Nada fazia diminuir aquela dor.

Um calafrio percorreu seu corpo quando um pensamento lhe passou pela cabeça: queria desesperadamente subir na mureta e sentir melhor o vento em seu corpo, em seus cabelos, em seu rosto.

Seus olhos rapidamente encontraram um caixote de madeira esquecido em um canto. Ela o colocou próximo a mureta e subiu. O robe flutuou ao sabor do vento e uma sensação indescritível de liberdade a atingiu. Uma ânsia pelo perigo, um certo desprender de todos os problemas parecia esperá-la lá embaixo.

Abriu os braços e fechou os olhos, aquilo era bom demais e queria que durasse para sempre. As lágrimas ainda caíam, porém não pareciam queimar seu rosto como antes. A adrenalina anestesiava a dor. Queria que o sofrimento, a culpa e o nojo de si mesma desaparecessem. Não conseguia mais pensar naquilo tudo e soube que um passo apagaria cada vestígio disso.

Então, preparou-se para saltar.

Uma mão suave, mas firme, a impediu.

 

permalink

Raio de sol - 1  escrito em quarta 16 dezembro 2009 19:02

 

- Consciência

 

 

          

           O som abafado de seus saltos no carpete caramelo aumentava a sensação desconfortável de estar completamente sozinha no longo corredor. O silêncio ali era um tanto estranho, já que do lado de fora do imponente hotel havia uma verdadeira multidão de fãs gritando alucinadas.

Praticamente todos os integrantes da banda estavam no térreo concedendo uma entrevista coletiva; todos exceto Caio, seu marido, e isso era no mínimo incomum. Contudo, mais preocupante ainda foi a cara de espanto da produtora ao lhe entregar um crachá e gaguejar antes de informar o número da suíte em que ele estava.

Um incômodo crescente em seu peito lhe dera a certeza de que algo estava errado ou pelo menos esquisito. Sentiu que a mulher hesitara ou temera alguma consequência daquela simples informação.

Ananda meneou a cabeça. Não deveria permitir que a desconfiança ou a sombra da depressão turvasse seu céu azul. Estava ansiosa para reencontrar o namorido – como costumava dizer – depois de uma longa semana de shows. Cada vez que Caio retornava de viagem ela sentia a tristeza diminuir e o vazio em seu peito não parecia uma ameaça prestes a lhe engolfar.

Desde que deixara sua cidade, há cerca de quatro anos para acompanhar o namorado naquela aventura em busca do sucesso, sentia-se cada vez mais triste. Conforme o tempo fora passando a sensação de agonia, depressão e consequentemente imensa solidão apenas aumentava.

Quase chegava a se arrepender de tê-lo seguido naquela empreitada, pois tudo o que realmente conseguira foram bens materiais e uma vida solitária para administrar. Estava vivendo à sombra do famoso Caio Reis, guitarrista da banda B.L.U e um dos mais admirados pelas fãs que se encantavam com seus cabelos repicados, boca carnuda e corpo sarado e repleto de tatuagens. Elas realmente ficavam histéricas quando o viam e Ananda era persuadida a evitar ao máximo estar com ele em público. Pior ainda, tinha que engolir quando diziam que ele era solteiro, livre de qualquer compromisso. Porém, era orgulhosa o suficiente para não admitir a derrota em sua vida e assim acabou por se acostumar a viver de aparências.

À margem de suas decepções pessoais, a banda B.L.U alcançou um sucesso meteórico. Em contrapartida sua vida se tornava cada vez mais sem sentido, estando quase que permanentemente imersa numa névoa densa, debatendo-se numa luta solitária para manter aquele relacionamento.

Seu casamento com Caio há muito não era mais o mesmo. Antes da avalanche de shows ele ainda fazia questão de voltar para casa pelo menos três vezes por semana. Ultimamente ele estava cada vez mais distante, física e emocionalmente.

Ela suspirou, resignada. Sua vida se resumia a escolhas de itens para a casa nova. Logo deixariam o apartamento e se instalariam num luxuoso condomínio. A nova prisão!, pensou.

A conversa animada de dois empregados do hotel saindo do elevador a despertou de seus devaneios. Esboçou um meio sorriso ao cumprimentá-los. Não deixaria que notassem seu estado de espírito. Mas seria mesmo possível que alguém notasse sua total solidão? Conseguiria esconder tão bem assim que não havia nada de glamour em ser a esposa de um músico famoso? Que havia apenas silêncio dentro de seu enorme apartamento e que sentia sua dor amainar toda vez que Caio retornava para seus braços? Não sabia dizer, já estava tão acostumada a disfarçar sua dor que às vezes também acreditava naquilo.

Reconhecia com pesar que só sentia um pouco de ânimo quando podia partilhar seus momentos com ele. Aquilo lhe fazia sofrer demais, pois não parecia certo deixar sua felicidade nas mãos de outra pessoa.

Lágrimas brotaram de seus olhos e ela respirou fundo, reprimindo-as. Pronto! Já se abalara por causa de um olhar diferente da produtora. Mas não perderia o controle sobre suas emoções, não se deixaria cair.

Claro que sabia que grande parte de sua dor vinha das decepções que sofrera nos últimos meses. Caio tivera dois casos amorosos. No mais recente, tivera um arroubo de consciência e pensara seriamente em deixá-lo, mas foi convencida pela própria mãe e pela demonstração de arrependimento dele, que por um curto período de tempo voltou a ser o Caio de antes do sucesso. Acabou ficando e engolindo mais uma. Via com o passar dos dias cada vez menos sentido naquela decisão.

Era como descobrir-se dentro do avião errado enquanto o certo seguia na direção oposta. Não tinha certeza se era realmente amor que lhe prendia ao lado dele, nem sabia sequer se seu coração despedaçado havia se recuperado.

Ao virar pelo corredor deparou-se com uma cena lamentável e que desejou nunca ter de presenciar: Caio beijando outra mulher!

Imediatamente deu meia-volta. Mais uma vez!, pensou com o coração acelerado. Sua respiração de repente começou a falhar, e ela sentia que a tosse logo ia surgir. Sabia que tinha que procurar a bombinha na bolsa, mas tremia tanto que lhe faltavam as forças. Maldita asma! Irritou-se com sua própria fraqueza.

Respirando lenta e profundamente, ela espiou. Ele beijava a mulher com ardor, com paixão, exatamente como... há anos não a beijava! Ananda sentiu que era arrastada mais uma vez para a agonia, para a dor que fere na alma e que destroça o coração. Mais uma vez o céu azul se dissipava por entre as ondas de tristeza. As lágrimas começaram a rolar por seu rosto e ela só notou quando sentiu o gosto salgado nos lábios.

– Quando ela for embora, você volta! – Ananda ouviu a voz ansiosa e rouca de Caio, enquanto ele deslizava as mãos pelo corpo escultural da mulher. Ele falara baixo, mas não o suficiente para que ela não pudesse ouvir.

Logo a porta foi fechada com força e ela se deixou escorregar até o chão. Lágrimas grossas desciam por seu rosto. Então eu sou um estorvo para ele... Ela! É assim que ele se refere à própria esposa? Ante aquele pensamento Ananda quase riu de si mesma, nem ao menos era esposa dele de verdade. Tentou recuperar na memória a imagem daquela mulher. Alta, corpo perfeito, cabelos longos e avermelhados e completamente grudada nele. Ananda se sentiu um lixo. Em poucos segundos seu olhar percorria a si mesma, crítico e esmagador. Nem de longe poderia se comparar a uma mulher como aquela.

A falta de ar aumentava cada vez mais e ela ouvia um som esquisito vindo de seu próprio peito. Não sabia dizer se era a decepção que lhe causava aquele aperto, aquela dor imensa ou se era a falta do medicamento. Tinha de alcançar a bombinha na bolsa e foi o que fez, borrifando duas vezes até voltar a sentir o ar lhe preenchendo os pulmões. Mas a dor ainda permanecia, obrigando-a a encarar seus próprios complexos.

Reuniu as forças que ainda lhe restavam e levantou-se bem a tempo de não se surpreendida pela chegada do elevador. Enxugou os olhos com as costas das mãos e achou que estava recomposta, mas ao reconhecer o rosto amigo de Sam, desmoronou. Ele a abraçou com carinho, esperando pacientemente até que ela se acalmasse.

Samuel era o vocalista da banda e morava no mesmo prédio que ela e Caio. Os dois idealizaram a banda e eram muito amigos. Ananda o considerava como um irmão, muito embora já o houvesse flagrado lhe dirigindo olhares nada discretos.

– Ananda, a bombinha você já... – ele se preocupou.

– Já. Usei. – ela ofegou.

– Quando soube que você estava aqui dei um jeito de sair da entrevista e vir procurá-la antes que... – ele parou de falar e ela o encarou.

– Não adiantou. Muito. – Ananda se afastou um pouco. – Você sabia.

– Ananda, como eu não poderia saber? Eu...

– Você sabia o tempo todo, Sam! – acusou, afastando-se mais ainda, indo na direção do elevador vazio.

– Por favor, Ananda. Não vá assim, você está muito nervosa.

– Chega de mentiras, Sam! Eu já estou cansada disso.

– Está bem, o que quer que eu diga, então?

– A verdade, Sam. – implorou, sem saber se suportaria o peso da verdade que estava exigindo.

– Caio sempre foi assim... e você sabe disso, Ananda.

Apesar da doçura com que Sam pronunciou aquelas palavras, elas foram como um tapa no rosto dela, um tapa que se dá em alguém completamente histérico. O efeito foi exatamente o mesmo e ela perdeu a fala.

– Vamos conversar em um lugar mais tranquilo...

– Acho que tem razão. – ela o interrompeu, como se ele não houvesse dito nada. – Eu sempre soube disso e tentei fantasiar que ele tinha mudado. Idiota...

– Não se torture, nem culpe a si mesma pelo desrespeito dele.

Ela fechou os olhos, a dor a estava sufocando e ficar perto de alguém que lhe demonstrava tanto carinho só piorava isso.

– Por favor, Sam, não conte nada disso a ele. – pediu, sem coragem para encarar o amigo. Covarde!, gritou para si mesma em pensamento.

– Se é o que quer... Claro, não direi nada.

– Prometa. Nem uma palavra sequer.

– Eu prometo, Ananda. Mas...

– Eu preciso ficar... sozinha, Sam. Por favor... – ela lutava contra a modulação embargada de sua voz. Não queria desmoronar de novo, não ali.

– Se quiser conversar eu estarei aqui.

– Obrigada... – sua voz saiu num sussurro quase inaudível.

Ela entrou no elevador e acenou levemente com a cabeça antes que a porta se fechasse. Não tinha idéia do que faria a partir dali. Só não queria mais ficar naquele lugar repleto de hipócritas e suas mentiras. Agora entendia a expressão assustada da produtora. Todos já sabiam.

permalink

Raio de sol  escrito em sexta 09 outubro 2009 05:50

Prólogo

 

 

          Para ela todo e qualquer ruído parecia se intensificar em meio à escuridão. Tentou enxergar o céu através das brechas por entre as árvores e levantou a cabeça, rezando para que alguém a encontrasse ali. De repente a lua cheia tornou-se assustadoramente escarlate, quase da cor de sangue; ela poderia jurar que vira o líquido viscoso espalhando-se ao redor.

 

          Estremeceu e fechou os olhos, sentindo a cabeça girar num ritmo descontrolado. Lembrou que alguém havia dito que alucinações e tonturas eram os primeiros sintomas. Pouco a pouco sua respiração se tornava irregular; ofegava tentando encher os pulmões com o máximo de oxigênio que conseguia. Seu corpo exausto implorava por descanso, mas ela sabia que se parasse por mais que alguns segundos a sensação de estar caindo voltaria com toda força.

 

          Estava assustada, cambaleando absolutamente sozinha na floresta escura. Seu estômago doía, contraindo-se contra os efeitos inevitáveis. Não podia parar, tinha de prosseguir em sua difícil caminhada, só assim os efeitos pareciam diminuir.

 

          Um gosto amargo ainda estava em seus lábios e ela se perguntava quanto tempo aquele pesadelo iria durar, quando o veneno finalmente começaria a destruir sua vida, se é que já não havia começado. Seu tempo estava se esgotando e achava que jamais encontraria ajuda. Era como lutar impotente contra os ponteiros de um relógio que, obstante a tudo, prosseguia seu contar.

 

          Lágrimas quentes inundavam seu rosto. Não tinha como escapar. Estava condenada a cada segundo que a afastava da lucidez, da vida e do homem que amava.

 

 

 

 

 

permalink

Raio de sol  escrito em sexta 09 outubro 2009 05:33

Blog de alehzau :Histórias d'Aleh, Raio de sol

“Nascemos todos os dias quando nasce o sol. Começa hoje mesmo a vida que te resta.”

(Lygia Fagundes Telles)

 

 

 

permalink
|

Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para alehzau

Precisa estar conectado para adicionar alehzau para os seus amigos

 
Criar um blog